“MEU AMOR PELOS CAVALOS NASCEU JUNTO COMIGO!” – CAVALUS

“MEU AMOR PELOS CAVALOS NASCEU JUNTO COMIGO!” – CAVALUS

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 Desde o dia, ao três anos de idade, que  o pai não conseguiu tirá-la de cima de um cavalo, ela vive e trabalha em função dele

Vanessa Artibano dos Reis, 33 anos, acredita que sua ligação com os cavalos vem de outra vida, tão grande é o amor e a sintonia que ela tem com eles. Casada há um ano e grávida de cinco meses, com uma limitação física por conta de um acidente de carro, ela não deixou que seu sonho morresse. Hoje ela cria animais da raça Quarto de Milha na Estância que mora com o marido, Luis dos Reis, em Bofete/SP. Nasceu em São Paulo, capital, e também morou em Maringá/PR, de 2003 a 2008, quando fez faculdade de Zootecnia, e em Botucatu.

Sua atividade principal é a criação de cavalos voltados para reprodução, com o intuito de venda de potros de sua criação. Ela trabalha nessa área desde 2013, quando fundou em sociedade com uma Médica Veterinária a CRIA Reprodução Equina. Foram quatro anos e meio trabalhando juntas, até que Vanessa decidiu seguir em uma carreira solo. Sua criação é composta, em sua maioria, de animais próprios, com éguas de cria, potros e um garanhão.

Conversamos com ela e descobrimos histórias incríveis! Confira a entrevista!

Aos cinco anos

Como começa sua história com os cavalos?

Vanessa: Acho muito importante dizer que a minha história com os cavalos foi baseada em muita luta e paixão, pois não tive influência familiar, nem condições financeiras favoráveis. Meu pai sempre trabalhou na área de ferramentaria para indústrias e minha mãe, apesar de ter se formado em pedagogia, trabalhava no lar. O primeiro cavalo que eu montei se chamava Bico Branco, eu tinha três anos de idade, foi em um hotel fazenda. Meu pai teve muito trabalho para me tirar de cima do cavalo, só conseguiu depois de três horas quando eu dormi. A partir de então, minha grande paixão se resumia em cavalos e cresci com um objetivo de viver deles e para eles. Com nove anos entrei em uma escola de hipismo, na Serra da Cantareira, onde aprendi a montar e entender que era realmente isso que queria para minha vida.

Aos dez anos com Katarine

Aos dez anos ganhei a minha primeira égua, a Katarine ela veio com uma potra ao pé chamada Princesa. Foi ai que meu pai adquiriu uma chácara em Bofete, onde íamos todos os finais de semana. Foi a minha oportunidade de conviver com os cavalos, entendê-los e montar uma tropa de mais de 40 animais ao longo de uns dez anos. Até então nunca foi negócio e sim um hobby, lembrando que eram animais comuns, sem raça ou papel. A Katarine veio de um haras de Appaloosa, ela era a égua do caseiro que levava a carroça, escolhi ela entre tantos outros, foi amor à primeira vista. A perdi depois de cinco anos por cólica e sua filha Princesa morreu com 19 anos em minhas mãos.

Na faculdade

E a faculdade?

Vanessa: Com 18 anos decidi fazer faculdade de Zootecnia e me mudei para Maringá. Foi uma época de muita luta, meus pais encaravam a falência da empresa e acabei conquistando uma bolsa que me deu condições de estudar e trabalhar. Foi durante a faculdade que comecei a treinar cavalos emprestados, de terceiros, participar de provas regionais oficiais e me interessar em julgamento. Isso era por volta de 2004, nas modalidades Seis Balizas e Três Tambores. Durante os cinco anos me dediquei e me especializei exclusivamente em cavalo. Foi isso que me deu condições de sair da faculdade trabalhando, ministrando palestras e minicursos. O maior objetivo era adquirir técnicas e aprimorar meus conhecimentos. Em 2008 fui trabalhar com o treinador Paulo Cunha, onde eu montava uma média de cinco cavalos por dia. Adquiri experiência para me sentir apta a trabalhar como profissional. Retornei à Botucatu onde prestava serviços como técnica e treinava cavalos para doma e iniciação até o ano de 2009.

Na época do CT Paulo Cunha

E a ideia de ser juíza de provas equestres, como foi esse processo?

Vanessa: A vontade de ser juíza aconteceu no segundo ano de faculdade, em 2004, quando eu já estava tendo a oportunidade de participar de provas e começando a compreender sobre regras. Em busca de um aprendizado mais profundo, entrei em contato com a ABCPaint, que abriu as portas para que eu acompanhasse todos os eventos dali em diante como estagiária. Não perdendo sequer um evento, me familiarizei com todos que faziam parte deste mundo, organizadores, juízes, diretores. Até que depois de três anos, em 2007, abriram inscrições para o Curso de Juízes Oficiais da ABQM, o qual me deu a oportunidade de me formar juíza. Fui aprovada em todas as etapas e cumpri todas as exigências de estágios. Apesar de já estar apta, eu não possuía idade mínima para exercer, que era de 25 anos (eu tinha 23 na época), dessa forma mantive meus estágios na ABQM, na ABCPaint, ANCA e ANCR, investindo tudo que podia neste sonho.

Equoterapia após o acidente

O seu acidente forçou você a dar uma pausa nos planos? Como foi essa época para você?

Vanessa: O meu grande sonho de ser juíza e trabalhar com treinamento de cavalos foi interrompido após um acidente de carro, no dia 27 de abril de 2009. Tive uma grave lesão medular na altura do pescoço, que me deixou tetraplégica (sem movimentos do pescoço para baixo). Só entendi a gravidade da lesão, e que eu precisaria abrir mão de meus planos, quando comecei a usar uma cadeira de rodas, e percebi a dificuldade que eu enfrentava para me locomover e a dependência que tinha para as coisas mais simples. Foi uma época muito difícil de aceitar, por muitas vezes quis desistir da vida, mas o que me impediu foi todo apoio que tive das pessoas que realmente me amavam e que modificaram toda a vida para me ajudar. Por todas elas e graças à fé que insistia em permanecer dentro de mim, fui à luta e vencia a cada dia, desenvolvendo o sentimento de gratidão da oportunidade de ter tido uma segunda chance.

Com alguns potros de sua criação

Pensou em desistir de continuar no cavalo?

Vanessa: Muitas vezes passou pela minha cabeça a ideia de desistir, por muitos motivos, as dificuldades, a dependência, o sacrifício, o preconceito, os olhares de pena e desaprovação, mas eu tive pessoas que nunca deixaram eu desistir de mim. Foi com muito apoio que descobri que conseguia dar assistência em treinamento de cavalos com excelentes resultados e que devia enfrentar os obstáculos para realizar o sonho de julgar. Depois de dois anos, em 2011, fui homologada Juíza Oficial da ABQM. Ainda sem me permitir desistir, após três anos do acidente, consegui me aposentar, e com o retroativo tive a oportunidade de investir na compra de três éguas e iniciei uma pequena criação. Em 2013 fiz uma sociedade, fundamos a Cria Reprodução Equina, uma central de reprodução. Finalizei a sociedade em 2016, depois que me casei, com o objetivo de ter um negócio próprio, juntamente com meu marido, Luis dos Reis.

Acompanhei alguns eventos da ABQM que você estava. Sabemos a dificuldade da acessibilidade para você ter acesso às pistas para julgar, como ficou essa questão?

Vanessa: Desde meu acidente, em 2009, até os dias atuais, houveram muitas melhorias na questão de acessibilidade nos eventos da ABQM. Após a minha homologação como juíza em 2011, reconheço os esforços e preocupação com minha integridade física por parte da Associação. Uma vez por ano sou contratada como juíza e exerço minha atividade com a máxima segurança e com as adaptações necessárias. Claro que ainda existe espaço para muitas melhorias, mas acredito que tudo tem o tempo certo. Tenho muita gratidão por todo reconhecimento e espaço que sempre tive dentro da Associação.

Julgamento Congresso ABQM
Julgamento Trail ABQM

Como é seu dia a dia hoje?

Vanessa: Hoje estou casada há um ano, estou grávida de cinco meses, me sinto completa por poder realizar o sonho de construir minha família. Com o nosso filho João Roberto a caminho, estou realizando minha maior superação, de ser mãe depois de tantos desafios enfrentados, e planos frustrados, é a prova de que tudo é possível se você acredita e vai a luta. Profissionalmente, realizei o sonho de conviver com os meus animais, eu e meu marido moramos na Estância e a minha alegria é sair na porta de casa e poder zelar pelos animais e o negócio que construí. Tudo baseado em muita luta e paixão, pois quem cria cavalos sabe que é tudo muito caro e difícil. E como eu decidi viver deles e para eles, enfrento essa grande luta diária para ter e não deixar faltar nada. É comum as pessoas acreditarem que quem cria cavalos são milionários, sofro esse tipo de preconceito de ser julgada por conseguir as coisas por ser rica (negócios, cavalos, casamento etc), mas faço questão de dizer que tudo que tenho é mantido com luta, preparo e talvez merecimento. Sou grata à Deus por tudo que conquistei, quando plantamos Amor, colhemos Felicidade.

Consegue explicar seu amor pelos cavalos?

Vanessa: Existem muitas coisas que são um mistério, meu amor pelos cavalos nasceu junto comigo, não sei se é coisa de outras vidas, dom ou destino, só sei dizer que os cavalos sempre foram o combustível da minha vida, paixão que me deu força para nunca desistir. Cavalos são seres mágicos e divinos capazes de reabilitar fisicamente e psicologicamente as pessoas, sou muito grata pela oportunidade de ter os cavalos em minha vida. Foram e sempre serão os responsáveis por tudo que conquistei de mais valioso, aquilo que não tem preço, o AMOR e a SUPERAÇÃO.

Por Luciana Omena
Fotos: arquivo pessoal

Source: “Meu amor pelos cavalos nasceu junto comigo!” – Cavalus